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Contos - O CASO DA VIÚVA
By : Léo
Na capela onde todos
aguardavam a chegada da urna com o corpo para ser velado, pairava um imenso
sentimento de desolação e tristeza em todos ali presentes.
Embora ele não gostasse
e sempre que podia evitava ir a cemitérios e velórios, pois aquele sentimento
fúnebre e sombrio me trazia uma enorme angustia e desconforto.
Eu estava ali, porque
fora obrigado pelo chefe, pois o falecido era um dos maiores clientes da
empresa em que ele trabalhava. Fora designado para representar a mesma, sendo
incumbido de prestar as condolências fúnebres a todos os familiares em nome da
empresa.
Em meio a todas as
pessoas ali presentes, ainda não havia conseguido identificar a viúva e os
filhos do falecido.
Decidiu então, ir à
lanchonete para tomar um café e fumar um cigarro enquanto aguardava o rabecão
chegar.
A aflição e desconforto
o incomodavam diante daquele ambiente. Estipulou então que assim que o corpo
fosse colocado na sala mortuária, ficaria ali apenas para prestar as
condolências, cumprindo sua obrigação e daria o fora daquele lugar.
Passado algum tempo, o
veiculo com a urna, estacionou próximo à entrada da capela e o corpo foi
retirado, sendo levado para dentro para ser velado e posteriormente sepultado.
Em sua mente, aquela
situação era absurda. As pessoas ficavam ali todas consternadas e chorando,
cultivando o sofrimento e a dor por varias horas diante do caixão ate o
sepultamento.
Via todo àquele ritual
e a única definição que tinha para tudo aquilo era de extremo masoquismo.
Após o caixão ser
aberto, a comoção de todo o ambiente.
Muitas lagrimas e lamentações, seguido de um choro compulsivo. A
aglomeração em pequenos grupos do lado de fora as pessoas comentavam algumas
estórias sobre o morto. Todos conversavam em tons baixos, quase aos sussurros,
respeitando a memoria e a dor dos familiares ali presentes.
Aproximou-se da urna e
ficou ali por alguns minutos vendo o defunto sem pensar em nada especifico
sobre o mesmo.
De repente, uma grande comoção e tristeza contaminaram a todos diante do
choro desconsolado da viúva que chegara naquele instante.
Preferiu deixar o
recinto por alguns instantes e retornar posteriormente para prestar as
condolências à viúva, pois estava sufocado com tudo aquilo a sua volta.
Algum tempo depois, quando as coisas já estavam um pouco mais calmas,
retornou ao interior da capela com o intuito de externar sua tristeza e nome da
empresa junto à viúva e os filhos e tão logo o fizesse, deixaria aquele
ambiente mórbido e frio.
Ao se aproximar da
viúva e abraça-la, consolando toda sua dor, não pode deixar de sentir o cheiro
adocicado de seu perfume. Algo de estranho lhe acontecera naquele exato momento
em que seus braços envolviam a mulher.
Uma espécie de arrepio envolveu todo o seu corpo. Aquela sensação
estranha e ao mesmo tempo excitante mexeu com toda a sua sensibilidade
masculina, causando uma volúpia e uma descontrolada atração pela viúva. O
desejo de possui-la movido pela excitação irracional e absurdamente louca.
Permaneceu ali abraçando a mesmo por um breve instante. Sentiu uma
imensa e insana vontade de permanecer ali naquele lugar abraçando aquela
mulher e a consolando enquanto ela choramingava em seu ombro.
Desejou os pêsames aos
filhos que ali também se encontravam e se afastou por alguns metros e ali ficou
parado, em pé, diante do morto.
Começou então a olhar e analisar cada detalhe daquela mulher que havia
lhe despertado uma enorme compulsão sexual, da qual jamais sentira ate então
durante toda a sua vida.
Abatida, com os olhos vermelhos e fundos, os cabelos desajeitados e a
expressão facial de enorme sofrimento, tudo isto, não era capaz de se
sobressair diante de toda a beleza e o ar de requinte cuja vaidade
imperava tornando-a extremamente sedutora e atraente.
Não se conteve. Deslizou seus olhos de forma lenta e sedutora por todo o
corpo daquela mulher que de forma totalmente inexplicável, mexeu com seus
desejos mais íntimos. Tornozelos bem torneados, coxas grossas e maciças.
Quadril e busto simétricos, seios fartos e insinuantes, bunda grande e gostosa.
Imaginou como seria ter aquela mulher nua em sua cama, sentindo sua pele
macia, seu cheiro, seu corpo escultural. Percorreria com sua língua por toda
aquela beldade em cada parte do seu corpo delicioso e bem cuidado de forma
carinhosa e maliciosa. Enquanto ele esbanjava toda a sua perspicácia e
habilidade, ela tomada completamente pelo desejo e pelo prazer, puxaria seus
cabelos apertando a cabeça dele por entre suas coxas suspirando prazerosamente
enquanto ele a chupava insaciavelmente.
Ao retornar de seus delírios fantasiosos, retomando o controle de seus
pensamentos, percebeu que a mulher o olhava de forma profunda, como se soubesse
tudo o que ele estava imaginando durante seus momentos de devaneios.
Ocorreu-lhe que o extraordinário poderia estar acontecendo, pois
percebeu que a mulher demonstrava certa atração por ele olhando fixamente em
seus olhos.
Por mais que quisesse, não conseguia sair dali perdendo completamente o
desejo de ir embora daquela cerimonia fúnebre.
A troca de olhar com a viúva, passou a ficar mais intensa e insinuante.
Ele sentia que se ela pudesse atiraria em seus braços agarrando-o e o beijando
descontroladamente.
Desviou o olhar da mulher e olhou para o cadáver por alguns instantes.
Começou a imaginar como poderia ter sido a vida daquele homem quando ainda
estava vivo. Com certeza sua vida teria sido agraciada por momentos de intensos
prazeres ao lado daquela mulher tão magnifica.
A fisionomia do homem, agora gélido e sem vida, expressava um ar de
tranquilidade. A impressão que eu tinha era a de que ele havia vivido tudo
muito intensamente. Morrera em paz.
Sem que eu percebesse, a viúva aproximou-se de mim enquanto eu estava
ali de frente o morto pensando em tudo aquilo. Pegou em minha mão de forma
consistente, como se quisesse me passar um sinal ou transmitir uma mensagem.
Ela tirou os óculos escuros, olhou em meus olhos e perguntou:
- Tenho a impressão de que o conheço de algum lugar, mas não sei de
onde. Você mantinha relações comerciais com o meu falecido marido?
Ele percebeu então que a mulher segurava sua mão como se não quisesse
soltar. Sentiu suas mãos macias e finas, bem cuidadas, as unhas bem feitas, na
mão esquerda a aliança e no mesmo dedo um anel de brilhante.
Respondi então a viúva, olhando fixamente em seus olhos:
- Sim claro. A nossa empresa realizava diversas transações comerciais
com seu finado marido. Seus negócios com nossa instituição sempre foram de
grande expressividade. Infelizmente durante todos estes anos, não tive o prazer
de conhecê-la pessoalmente.
Naquele instante, pude perceber nos olhos da mulher, embora
lacrimejantes, certo ar de desejo por mim. Ficamos nos olhando fixamente por
alguns instantes. A vontade que tive naquele momento era de agarra-la em meus
braços e possui-la ali mesmo loucamente tamanho era o meu desejo por ela.
Um amigo de seu finado marido, neste momento se aproximou e a puxou pelo
braço, lhe abraçando prestando-lhe as condolências e lastimando-se com a perda
do amigo. Conversaram por alguns instantes e logo a viúva pediu licença para ir
ao toalete.
Neste momento, já se dirigindo rumo ao toalete, ela se virou e lançou um
olhar fulminante em minha direção. Provocantemente ela parecia implorar para
que eu a seguisse até o mesmo.
Impulsivamente sai imediatamente atrás daquela mulher que me fez perder
completamente o juízo. Situação esta que me fazia sentir um enorme frio na
barriga, pois jamais em minha vida havia acontecido algo parecido.
Adentrou em uma sala bastante reservada, somente onde os parentes mais
próximos do falecido tinham acesso e logo a frente avistou a mulher parada em
uma porta que dava acesso ao banheiro. Ela virou e lançou um olhar fulminante
em sua direção. Sem levar em consideração qualquer tipo de consequência diante
daquele ato de extrema loucura, entrou atrás da mulher e trancou a porta.
Já do lado de dentro, tanto ele quanto ela, completamente tomados pelo
intenso desejo um pelo outro, não perderam tempo. Ele a segurou pelos braços
dando um beijo caliente arrancando suspiros.
Os dois completamente embalados pelo desejo e possuídos por uma
insanidade eróticamente avasalladora, despiram-se e movidos pela enorme
atraçao, se entregaram ao prazer ali mesmo no chão. A pesar da escassez do
tempo que durou o ato libidinoso, foi o suficiente para saciar ambas as partes.
Ao final da louca e totalmente improvável situação de una relação
amorosa completamente surreal, eles vestiram suas roupas, abriram a porta do toalete
e saíram em direção a lados opostos.
Escrito por: Leandro Vieira
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Contos - Eduarda
By : Léo
Eduarda
Aquela era mais uma noite que Eduarda passava no mato, com seus quatro filhos pequenos. Eles enfrentavam mosquitos, espinhos, sem agasalhos, sem comida e até mesmo sem água. Eduarda tinha sido colocada para fora de casa pelo marido. Ele sempre fazia isso quando estava bêbado.
Isso se passava no Sítio São Diogo, na década de 1970.
_Durmam fios, a lua tá crara, num vamu ficá na iscuridão. Num pricisa tê medo, eu vigio vocês.
As crianças adormeceram sobre as folhas secas no chão, apesar do desconforto. Já Eduarda, ficou sentada chorando e lamentando sua vida. Ela tinha vinte anos, era alta, um pouco gorda, pele branca e cabelos pretos, trazia no olhar a tristeza de existir. Casou aos quinze anos, com Marcos, um homem muito violento, que a espancava.
Naquela noite, ele tinha chegado em casa bêbado e depois de uma briga, expulsou a mulher de casa e logo após foi dormir, como se nada tivesse ocorrido. Sem ter para onde ir, a pobre mulher procurou o mato. Ela já estava acostumada com aquela situação deplorável.
A primeira vez que Marcos a pôs para fora de seu lar, ela procurou a casa dos pais, porém, estes não lhe receberam, disseram que a mesma tinha que ter paciência com o esposo e que voltasse para o lado dele. Então Eduarda foi para uma mata deserta, onde se refugiou. Quando o dia raiou, ela voltou para casa. A partir daquele dia, ficou sendo sempre assim: Ela e os filhos dormiam na mata e no dia seguinte voltavam para sua residência e Marcos agia como se nada tivesse acontecido.
Não havia um diálogo entre eles sobre aquela situação. Eduarda tinha medo do marido e não possuía coragem para enfrentá-lo e nem alguém que lhe apoiasse. Estava condenada a viver o resto da vida sofrendo nas mãos daquele homem, que mais parecia um monstro.
Uma vez, ele deu um puxão tão grande nos seus cabelos, que arrancou uma grande quantidade deles. Ela guardou-os para mostrar a seus pais, no entanto, os mesmos mantiveram-se calados e não ajudaram a filha. Eram conservadores, não queriam ter uma filha separada.
Depois de refletir a respeito de sua sina, Eduarda ainda cochilou um pouco. Mas o sol não demorou a nascer e ela voltou para casa, humilhada como sempre.
Marcos foi para a roça sem falar nada e ela cuidou nos serviços e no almoço. As crianças foram brincar, apesar de estarem tristes. Com certeza, os filhos de Marcos cresceriam traumatizados e cheios de problemas. Eles além de presenciarem o pai agredir a mãe, ainda apanhavam também às vezes. O psicológico daquelas crianças já estava abalado e a tendência era que eles não fossem sadios mentalmente. Eles tinham muita pena da mãe e raiva do pai. Este, nunca plantou amor nos seus corações, só plantou a violência. Marcos era doente, gostava de bater e ver a mulher sofrendo com as pancadas. Sua esposa não sabia disso, no seu pensamento, o marido apenas não prestava. Esta, não o amava, aliás, nunca amou. Quando casou, era apenas uma menina influenciada pelos pais. E dessa forma, muito cedo começou a ser vítima da violência doméstica.
_Traiz um suco pra eu, muié! Ordenou Marcos, quando chegou, muito irritado da roça.
_Ainda num fiz, mais vô fazê agora.
Seu marido brutalmente deu-lhe um soco no olho. Ela caiu no chão chorando, mas logo se levantou e muito trêmula, foi providenciar o suco. Naquele mesmo dia, Eduarda descobriu que estava grávida. Seu primeiro gesto foi levar as mãos à cabeça. _E agora? Pensou a coitada.
No dia seguinte, ela contou ao marido e ele não disse nada, ficou em silêncio.
Eduarda vivia em uma época muito difícil para as mulheres, pelo menos na comunidade do São Diogo. Naquele lugar, a mulher era vista como um ser insignificante, sem vez, ou seja, não era valorizada. Seu papel se restringia a obedecer ao marido e cuidar da casa.
Durante a gravidez, Eduarda continuou apanhando e passando algumas noites no mato, mesmo assim, seu filho nasceu.
_É um subriviventi. Pensou a mãe, ao ver o filhinho.
Após o nascimento desta criança, a mulher de Marcos resolveu mais uma vez, procurar seu pai, para pedir ajuda.
_Papai, fali cum meu maridu, peça pra ele Pará de batê neu, ou dexi eu vortá pra casa. Eu to sofreno muito nas mão dele.
_Fia, seu marido é um bom sujeito, trabaiadô, nunca dexô fartá nada pra você, além de sê dono de umas boa cabeça de gado. você pricisa aprendê a lhe dá cum ele e lhe obedecê sempre. Procuri vivê im paiz!
Mais papai...
_Eduairda vorte pra sua casa, trabaiá e cuidá de seu maridu e se conformi cum sua vida.
O pai de Eduarda talvez não amasse a filha, porque sabia que a mesma estava apanhando e não se importava. Para ele, o homem tinha o direito de bater na esposa. Seu pai batia em sua mãe, ele batia na mulher, era natural que o genro espancasse a filha.
Aos poucos, Eduarda foi entendendo isso e nunca mais seu pai ouviu reclamação sua. Ela passou a agüentar tudo calada. Aprendeu a apanhar, cair, levantar e continuar sozinha, tendo seus filhos como testemunhas da sua dor.
Marcos tornava-se cada vez mais agressivo e descontando toda sua raiva na esposa.
Um dia, ele lhe deu uma forte surra, depois foi para a roça e ela ficou na janela chorando e olhando para o nada. Nesse momento, apareceu um mascate vendendo umas pulseiras e quando parou em frente à sua casa, para lhe oferecer, percebeu suas lágrimas e as marcas de violência em seu corpo.
_Foi seu marido, não foi minha senhora?
_Foi sim, ele ispanca eu constantimenti.
_Porque não o abandona?
_Num tenho pra onde ir, cum meus cinco fio.
O homem pediu um copo d’água e enquanto a mulher foi buscar, ele ficou pensativo.
_Aqui ta a água.
_Obrigado. Tem um café?
_Sim.
Após tomar o café, ele olhou dentro dos olhos tristes da mulher e disse:
_Venha comigo.
Eduarda ficou muito pálida e começou a tremer.
_O qui o sinhô disse?
_Quer ir embora comigo, para o Ceará?
_Eu nem lhe cunheço, o sinhô é louco por acaso?
_Não precisa me responder agora. Amanhã, neste mesmo horário passarei pra lhe pegar. Se a senhora quiser deixar essa vida de horror, apronte-se e me espere.
_Eu só vô se puder levá meus fio.
_As crianças eu não posso levar. Se a senhora quiser ir, é sozinha.
_Num tenhu coragi de dexá eles.
_Em todo caso, pense bastante. É sua chance de se livrar desse homem violento. Até amanhã!
Eduarda ficou muito confusa e angustiada. Queria ir, entretanto, olhava para os filhos e começava a chorar._Num possu abandoná eles.
Nesse momento, ela olhou para o retrato do marido na parede e veio-lhe na mente os maus-tratos que sofria._O qui façu? Indagou ela a se mesma.
No dia seguinte, Eduarda decidiu-se e quando olhou para o seu bebê dormindo, não conseguiu ficar sem chorar.
_Fia cuidi sempri de seu irmãozim mais novu, nunca dexi ele sofrê e nunca isqueça qui mamai ama vocês muito. Disse ela para a filha mais velha, que tinha oito anos.
Eduarda abraçou e beijou cada um dos seus filhos e mandou que eles fossem brincar no quintal. Marcos já estava na roça, tinha saído bem cedo.
Quando o mascate passou, ela foi embora com ele, dizendo a se mesma que um dia voltaria para buscar os filhos.
Conto escrito por: Maria do Socorro Abrantes Sarmento
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